Sargento Calixto: Um herói esquecido

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     Trinta e cinco pessoas, inclusive mulheres e crianças, morreram afogadas na Lagoa do Parque Solon de Lucena, quando uma embarcação do Grupamento de Engenharia, que promovia passeios recreativos para a população, naufragou. O fato ocorreu no dia 24 de agosto de 1975, um domingo, e um foi assistido por  uma multidão  de mais de cinco mil pessoas que  se postavam em volta da Lagoa, entre elas parentes e amigos das vítimas, o que causou uma indescritível comoção.
   Esses passeios constavam da programação alusiva à passagem da semana do Exército. O Grupamento de Engenharia montou um ancoradouro na Lagoa, nas proximidades do Restaurante Cassino e dele partia um grande Barco, com capacidade para oito toneladas, ou seja, aproximadamente, cem pessoas adultas.  Os passeios, com duração média de vinte minutos cada, consistiam em uma volta em torno da Lagoa, e o desembarque era no mesmo local da partida. Aquele era o segundo dia dessas atividades e mais de seis mil pessoas já tinham feito o passeio.
        Aproximadamente às cinco e meia da tarde daquele fatídico dia 24 de agosto, partiu a última viagem programada para aquele evento. Eram cerca de cinquenta passageiros.  Quando o Barco alcançou uns cinquenta metros de distâncias da borda da Lagoa, alguém que estava na parte posterior teria gritado que estava entrando água. Os passageiros se apavoraram e correram todos para a parte anterior do barco.  Com isso, o peso das pessoas desequilibrou o barco que foi afundando aos pouco, e os passageiros apavorados foram pulando na água. As pessoas que estavam em volta da Lagoa, naquela trágica tarde de domingo, começaram a gritar pedindo ajuda a uma equipe de militares do Exército que se encontrava em um barco de apoio nas proximidades.  Apesar do grande esforço desses militares, salvando diversas pessoas, não foi possível evitar a morte de trinta e cinco outras, inclusive um Soldado e um Sargento dessa equipe.
   Naquele momento transitava no local o Terceiro Sargento da Polícia Militar Reginaldo Calixto da Silva, que estava de folga e a paisana. Ao ver o drama das pessoas se batendo nas águas clamando por socorro, Calixto não titubeou e num gesto de coragem e de profundo espírito de solidariedade se atirou na Lagoa com toda roupa que vestia. Com esse heroico ato o policial conseguiu retirar das águas duas crianças ainda com vida.  Quando tentava salvar mais uma criança, Calixto foi abraçado por ela, no natural desespero causado pela situação, e com ela também se afogou, sendo seu corpo resgatado horas depois por uma equipe do Corpo de Bombeiros.
    No decorrer da noite e no dia seguinte foram resgatados trinta e quatro corpos, inclusive mães e filhos que foram encontrados abraçados no fundo das águas. Na terça-feira foi encontrado o corpo de mais uma vítima, totalizando trinta e cinco.
    Como era natural, todos os jornais e emissoras de rádios da cidade fizeram uma grande cobertura do fato que ganhou repercussão nacional. Os relatos que a impressa fez sobre a forma como os corpos foram encontrados, são impressionantes,  dramáticos e muito tristes.   Foi a maior tragédia já ocorrida na cidade de João Pessoa.
     Nos boletins do Comando Geral da época não há registro de nenhuma forma de reconhecimento desse gesto do Sargento Calixto.   Pouco depois desses fatos um grupo de Oficias que prestava serviço no 1º Batalhão resolveu prestar uma homenagem ao Sargento Calixto, dando o seu nome uma sala localizada no 1º andar da sede daquele Batalhão, onde foi colocada uma fotografia do homenageado.  Mas foi um ato informal, sem a fundamentação de uma norma administrativa ou legal. Com o passar do tempo o nome e a foto foram retirados do local e, até nossos dias esse herói continua no anonimato.
       No dia 26 de agosto de 1975, o Jornal O Norte publicou a seguinte nota referente ao Sargento Calixto,
Vista da população acompanhando o resgate dos corpos
VISTA DO PASSEIO

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2 Comentários em "Sargento Calixto: Um herói esquecido"

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Carol toscano
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Amigo Batista, parabéns, só você mesmo para resgatar fatos históricos da nossa briosa. Infelizmente, nesse dia trágico, eu me fazia presente ajudando na locomoção das vítimas para o IML que ficava próximo ao Cemitério Senhor da Boa Sentença. Lembrando ainda que, à época, o Comandante do Primeiro Batalhão era o Coronel Geraldo Gomes, já falecido! Cel Morival

coronel batista
Visitante

Meu caro Morival: Fico grato com seu comentário. Acho que você pode contribuir com o resgate de fatos dessa natureza. Escreva e remeta para o meu e-mail coronelbatista@bol.com.br e terei prazer e publicar nesse espaço. Sugiro um relato sobre o seu CFO ou sobre as atividades operacionais no seu tempo de tenente. Pode ser fato curioso ou engraçado. Até pequenos e curiosos acidentes, ou gozação, sadia com companheiros. Sei que vc tem muita coisa que pode ser contada. Se preferir posso até manter o anonimato. Estou no aguardo.