Um tiro no lampião evitou invasão do Palácio da Redenção

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         Diante da dinâmica imposta à sociedade pela velocidade do avanço técnico e científico, a capacidade de iniciativa do profissional para buscar soluções inovadoras diante de momentos de crises é uma das habilidades mais importantes para o bom desenvolvimento de qualquer atividade humana. E nesse contexto de permanente mudança, a tônica é a inovação.
       As atividades relacionadas com a segurança pública não estão isentas dessa realidade. Na maioria das vezes o êxito das ações policiais depende da iniciativa dos seus executores. Às vezes são ações aparentemente insignificantes, mas que podem causar impacto no resultado final da ação. Nessas atividades, que não raro expõe seus autores a riscos, essa habilidade é mais exigível em situações que fogem à normalidade e representam perigo iminente para os executores do serviço, para a instituição e para a sociedade.  Nessas situações a iniciativa pode partir de integrantes menos graduados que pela experiência, esperteza, coragem, ou espírito de corpo, assume posições que, de logo, obtém o apoio dos demais integrantes do grupo.
      No mês de janeiro de 1967 os integrantes da Guarda do Palácio da Redenção vivenciaram uma curiosa circunstância desse tipo na qual uma astuciosa e perigosa iniciativa de um Soldado evitou a invasão daquelas instalações.
     Naquela época ocorriam muitas manifestações políticas promovidas por integrantes de entidades sociais, sendo a maioria realizada por estudantes de diferentes níveis. O alvo dos protestos, como sempre, era o Governo. Normalmente a concentração dos manifestantes ocorria, no início da tarde, no pátio em frente à Igreja Catedral.  Dalí o grupo seguia em passeata pela Avenida Geral Osório, pegava a Rua Pelegrino de Carvalho e chegava à Avenida Duque de Caxias, rumando em direção à Praça João Pessoa onde eram proferidos discursos inflamados contra o Governo.
      A primeira providência que a Guarda do Palácio adotava nesses momentos era fechar o portão para evitar a possibilidade de invasão ao prédio. Assim os manifestantes ficavam à vontade para suas ações. Não havia depredações nem agressões físicas aos policiais. Essas manifestações eram tão frequentes e tinham desfechos tão pacíficos que não havia maiores preocupações por parte das autoridades.
      Tanto era assim que certo dia, no mês de janeiro de 1967, por ocasião de um desses protestos, não havia no Palácio nenhuma autoridade, civil ou militar, com capacidade funcional de determinar adoção de medidas em situação de emergência. O Comandante da Guarda era o Sargento conhecido por Brucuta, um graduado de baixa escolaridade, pouca habilidade para o comando e tido pelos seus comandos como muito “enrolado”. O efetivo da Guarda era de nove Soldados Recrutas, e um Cabo, além de Brucuta. Era um dos primeiros serviços do Soldado José Batista de Souza, um recruta vibrador, muito esperto e com um forte espírito de liderança.
      Naquele dia, no momento em que os portões foram fechados os manifestantes atiraram uma pedra na vidraça quebrando-a e fazendo lançar estilhaços para o interior do Palácio. Um Soldado foi atingido no rosto por um caco de vidro e começou a sangrar muito. Os demais Soldados ficaram apavorados. Brucuta ficou inerte. Os manifestantes perceberam o estado de desespero da Guarda e se aproximaram do portão, com gritos de ordem, ameaçando invasão. A calçada foi toda tomada. Começaram a forçar o portão. E Brucuta sem ação.
    O Soldado José Batista tomou a iniciativa. O Cabo ficou dando assistência ao Soldado ferido. Batista mandou os outros setes Soldados se armar de Fuzil, abriu o portão e saiu com o grupo de policiais empurrando os manifestantes e se colocando em linha na calçada. Aos poucos os manifestantes foram recuando para a calçada da praça.
      De repente alguém, em meio aos manifestantes, gritou que as armas estavam carregadas com balas de festim. Uns mais afoitos começaram a avançar em direção aos policiais. A tensão era cada vez maior. A quantidade de afoitos aumentava.  Foi ai que Batista ariscou uma manobra astuciosa. Apontou seu fuzil em direção à luminária de um poste na calçada da praça. Os manifestantes ficaram na expectativa. O tirou ecoou na praça. Um barulho ensurdecedor. A luminária foi espatifada. Foi caco de vidro pra todo lado, provocando um grande ruído. A correria foi geral. Foi gente correndo por todas as vias de acesso àquela praça.  Em poucos minutos não restava ninguém na praça.  Batista recolheu seu grupo. O Soldado ferido foi encaminhado ao Pronto Socorro.
     Como era natural, o fato foi amplamente noticiado com sérias críticas ao Governo. O Governador João Agripino, sempre muito rigoroso na apuração de atos praticados por policiais, quis saber de onde partiu a ordem para atirar nos estudantes, como era noticiado o fato. O Coronel José Belarmino Feitosa Filho, Chefe da Casa Militar, que  só teve conhecimento dos fato horas depois, em um gesto de muita lealdade, assumiu a responsabilidade de ter dado a ordem para os policiais agirem em defesa do Palácio. No dia seguinte Belarmino foi exonerado e o Major Lindenberg da Costa Patrício o substituiu. Ninguém da Guarda foi punido.
      O Soldado José Batista de Souza fez carreira na Corporação alcançando todas as graduações. Durante muito tempo ele foi Sargenteante da Companhia de Policiamento Ostensivo (CPO), função que exerceu com muito entusiasmo e competência. Nas atividades operacionais ele demonstrava muito equilíbrio, postura, e liderança o que lhe fez angariar o respeito e admiração dos seus subordinados, pares e superiores. De tipo físico esguio e rara destreza, ele foi um praticante e incentivador de atividades esportivas na Corporação, em particular o Futebol.    Depois de alcançar o Oficialato no Quadro da Administração, Batista foi Tenente e Capitão, sempre com a mesma vibração, até passar para a reserva no Posto de Major, depois de trinta anos de bons serviços prestados à Corporação.

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