Pense num Tenente presepeiro. Fortunato … uma figura.

       Durante os trinta anos que passamos na Polícia Militar tivemos a oportunidade de conviver com companheiros dos mais diferentes tipos de comportamento, dos quais guardo muitas recordações. Tinha os de marcante presença de espírito, sempre com “tiradas” engraçadas e inteligentes.  Esses estavam sempre bem humorados e dispostos a fazer brincadeiras com os que davam motivos para gozação, que era o bullying da época. Sofremos com os ranzinzas e pessimistas extremados para os quais tudo estava errado. Compartilhamos com os sonhadores por melhores dias. Muitos eram vibradores, competentes e dedicados à Corporação. Outros poucos não queriam nada, mas exigiam tudo. Tinha muitos “desenrolados” que sabiam fazer tudo e tudo faziam, e alguns “enrolados” que tinham dificuldade para fazer qualquer coisa, e poucos “maceteiros” que sabiam fazer  tudo mais faziam que  não sabiam, para nada fazer. Valentões de verdade, mas discretos e medrosos fanfarrões dividiam o mesmo espaço.  Mesmo com essa diversidade de perfis humanos, havia muita harmonia, camaradagem e companheirismo. Enfim, éramos gente. Hoje não pode ser diferente pois a natureza humana em muitos aspectos é imutável.
       Mas, nesse espaço, queremos fazer alusão a uma figura que, no decorrer da década de 1970 e começo da seguinte, ficou muito conhecida no âmbito da Corporação pelas suas presepadas e ações de “vivacidade”, nem sempre ética.  Era o que poderíamos denominar de figura pitoresca. Seu nome era José Fortunato de Morais e suas peripécias poderiam inspirar o saudoso Arriano Suassuna na criação de tipos como o de João Grilo.
       Conheci Fortunato em 1976 e ele, já com 56 anos de idade, era 1º Tenente antigão.  Os Tenentes, todos com menos de trinta anos, tinham o maior respeito por ele. Concorríamos à escala de Oficial de Dia no 1º Batalhão.  Mas todos os Oficiais que recebiam o serviço dele tinham problemas. Naquela época ficava à disposição desse serviço muitas armas, munições e equipamento para utilização em caso de emergência. Esse material ficava em um baú no alojamento do Oficial de Dia.  Pois é, de vez em quando Fortunato escondia parte desse material na hora da passagem de serviço.  Se o material não fosse conferido de forma bem detalhada, quem entrasse de serviço ficava responsável por futuras constatações de faltas. As armas eram mais fáceis de conferir, mas tivemos de comprar muitos cartuchos de 38 para cobrir essas brincadeiras de Fortunato.
     O Tenente Coronel João Valdivino da Silva, que Comandou o 1º Batalhão e era conhecido e admirado pela presença de espírito, dizia, em tom de gozação, que quem tinha o nome de Fortunato, e agia como ele, deveria ter uma mãe vidente.
      Eram muitas as estórias que contavam de Fortunato. Algumas pareciam ser inventadas ou praticadas por outras pessoas, mas, de qualquer forma, eram a cara dele.
      Vamos tentar reproduzir quatro desses feitos de Fortunato, que espelham bem o seu perfil.
     Fortunato era Delegado de Polícia no interior e certa vez foi convidado por um rico comerciante local para o casamento de uma das suas filhas. Na hora da festa Fortunato chegou, fardado, com dois Soldados, todos com mochila de campanha, fuzil a tiracolo, capacete com malha de camuflagem, cheia de ramos de árvores e com a cara pintada de preto. Mandou chamar o pai de noiva e disse:
  -  O Senhor me convidou para festa, mas eu tenho de sair agora em uma diligência urgente, e vim dizer ao Senhor que o que eu e meus Soldados iríamos  comer e beber, o Senhor me der em dinheiro.
   De outra feita Fortunato, ainda como Delegado, fez uma rifa com um Fuzil do Destacamento e vendeu todos os bilhetes no comércio da cidade. No interior, naquela época, todo mundo queria ter uma arma daquela. Depois da venda dos bilhetes, Fortunato não deu mais notícias aos compradores.
    Depois de alguns dias, Fortunato passava na feira, recolhendo os donativos para a Delegacia, e quando ele estava bem no meio do povo, um comerciante, querendo desmascarar o Delegado, gritou de longe:
   - Tenente, como foi o sorteio do Fuzil?
    Fortunato se virou, abriu os braços e de forma bem teatral respondeu:
  - Ah .. meu filho.. a água só corre pra o mar... quem ganhou o Fuzil foi o Comandante da Polícia.
    Fortunato era um homem muito conversador, metido a orador, baixo, gordo, alvo, careca, meio desmantelado, e com pouco asseio com a indumentária. No começo da década de 1970 ele passou um tempo servindo no 2º Batalhão, em Campina Grande. Naquela época alguns Oficiais, principalmente os mais jovens e solteiros frequentavam as casas noturnas da cidade, e para isso costumavam se vestir bem.  No alojamento existiam vários armários para os Oficiais laranjeiras, que eram os que moravam no Quartel. Como a convivência era harmoniosa, a maioria desses armários não tinha chaves. Pois é, não é que Fortunato resolveu aprontar.  Quase toda noite ele saia escondido, com a roupa de um laranjeira.  Era paletó, blusão, camisa social, calça, sapatos, óculos escuros, e até perfume. Qualquer que fosse o manequim dava certo. Apertada, folgada, suja, limpa, não importava. Lá ia Fortunato tirar onda.  Quando essa astúcia foi descoberta foi a maior confusão.  Teve gente que até deixou de vestir as roupa usadas por Fortunato. No rol das coisas alheias usadas indevidamente por Fortunato constava ainda, sabonete, toalha, estojo de barbear, pasta dental e até escova de dente.
        Pertencente ao Quadro de Oficiais da Administração Fortunato chegou ao oficialato aos quarenta e três anos de idade. Portanto, era considerado um homem velho para ser Tenente. Por esse motivo ele era tratado com muito carinho pelos companheiros do mesmo posto, mesmo se sabendo dessas suas facetas. Numa dessas noitadas em Campina Grande, Fortunato estava acompanhado do Capitão João Ribeiro, outra figura curiosa, que igualmente era do Quadro da Administração, e também tinha mais de quarenta anos, mas era muito vaidoso e buscava parecer ser mais novo. Para ganhar atenção das mulheres, Ribeiro dizia que Fortunato era seu pai e que tinha trazido ele para se divertir.  O papo nesse sentido rolava solto com todo mundo fazendo gozação de Fortunato. E ele quieto. Lá pras tantas Ribeiro saiu do salão com uma das profissionais da casa. De imediato, Fortunato pediu o prato mais caro que era servido no local, cigarro, tira-gosto e bebida para ele e para as meninas, todas empolgadas com as gentilezas do pai de Ribeiro. Depois dessa farra, ele pediu que a conta viesse o mais rápido possível.  Quando chegou a conta Fortunato disse.
     - Hoje é meu aniversário. Quem vai pagar a conta é meu filho.
      Fez isso e saiu.
     Cerca de duas horas depois Ribeiro voltou e procurou Fortunato, sendo informado de que seu “pai” tinha ido embora e deixado uma conta alta pra ele pagar. Ribeiro quis protestar, mas não teve saída. Teve de pagar.
    Ribeiro que tinha sido goleiro do Bando Azul, um time de Cruz das Armas, e dizia ter praticado luta livre, tinha fama de valente e  sempre portava uma pistola a que ele chamava de “brocadeira”, que, segundo ele, tinha sido utilizada em muitos “serviços”, embora nunca se tenha constatado a veracidade das muitas bravuras que ele dizia ter realizado. Mas, de qualquer forma, ele era temido.
    Quando Ribeiro chegou ao Quartel, sacou a “brocadeira“ e se dirigiu para a cama de Fortunato, onde tinha uma pessoa dormindo e bem coberta, naquela fria madrugada de Campina Grande. Ribeiro puxou o vulto pelos pés. Era um Major, também com fama de brabo, que era Delegado no sertão e estava de passagem naquele Quartel. Foi a maior confusão para Ribeiro explicar ao Superior o que estava acontecendo.
  - Ah.. disse o Major, é por isso que Fortunato me pediu pra trocar de cama com ele dizendo que o colchão dessa ao lado, onde eu estava,  tinha pulga e ele já estava acostumado e dormir nela. Depois ele se deitou aí.. e sumiu.  Êita cabra presepeiro.
   Fortunato dormiu numa cama no Xadrez do Batalhão, com a chave das grades no bolso.
   No dia seguinte a turma do deixa disso interveio evitando vindita de Ribeiro, que passou a ser vítima de uma grande gozação.
    Muitas das estórias de Fortunato são impublicáveis. Mas as aqui relatadas podem expressar o seu perfil.
     É interessante como todos nós gostávamos dele.  Na verdade Fortunato era uma figura.

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