Tropa impede expulsão humilhante de Soldado

           Para que o Oficial da Policial Militar adquira as qualidades imprescindíveis para o seu bom desempenho como comandante de tropa é indispensável, preliminarmente, que ele tenha aptidão para essa atividade, equilíbrio emocional e a qualificação técnica adequada obtida nos cursos realizados ao longo da carreira. Mas o verdadeiro aprendizado do Oficial é obtido no cotidiano convívio com a tropa. É nessa situação que ele exerce suas qualidades de líder, aplica conhecimentos técnicos, troca experiência, se impõe pelo exemplo de conduta, e, o mais importante, conhece os sentimentos do grupo por ele comandado e os valores por ele adotados.  O desconhecimento ou a subestimação dos sentimentos da tropa por parte do Comando pode provocar consequências imprevisíveis. Foi o que ocorreu em março de 1989 na Polícia Militar da Paraíba, quando o Comandante tentou realizar a expulsão de um Soldado se utilizando de um ato solene humilhante,

       Mesmo nos primeiros regulamentos disciplinares adotados por essa Corporação não havia a previsão de castigos físicos. Mas existiam punições que afetavam moralmente os punidos. Uma delas era o rebaixamento, temporário ou definitivo, de posto ou de graduação. Entretanto, a forma mais degradante de punição era a expulsão com a retirada da farda do policial, em frente à tropa. Quando a expulsão se dava em decorrência da prática de um crime, o punido, além de ser submetido a esse cerimonial, era entregue à polícia civil, também na presença da tropa.        Com o tempo os regulamentos foram se modificando e não houve mais atos dessa natureza.

No dia 20 de março de 1989, dois Soldados recrutas, fardados, fora de serviço e sem autorização faziam abordagens de pessoas nas proximidades do Cassino da Lagoa, em João Pessoa, quando um deles acabou provocando lesão corporal em uma pessoa que resistiu ao ato ilegal. Foi um fato grave, totalmente reprovado pela sociedade, e que teve grande repercussão na imprensa. O Comando da Polícia tinha o dever de adotar medidas enérgicas e urgentes.

Três dias depois, por ordem do Comando, foi reunido um grande contingente no pátio do 1º Batalhão. Era uma formatura extra, fora da rotina. Praças e Oficiais entraram em forma sem que ninguém tivesse conhecimento do que se tratava. Estranhamente, uma Viatura tipo veraneio, conhecida como Camburão da Polícia Civil estava estacionada entre os Oficiais e as praças, com a porta do compartimento de Xadrez aberta, e voltada para o lado das praças.   O Comandante chegou ao local, recebeu a continência de estilo, e se postou no lugar de honra do dispositivo.  Um oficial começou a fazer a leitura do Boletim do Comando Geral, documento em que são formalizados os atos administrativos do Comandante.

De repente ouviram-se gritos desesperados vindos dos corredores do Quartel.  Em seguida surgiram dois policiais militares, trajando civilmente, conduzindo, à força, um Soldado, algemado, fardado, mas com uma roupa civil, visivelmente, por baixo.  Era o acusado do crime ocorrido no Cassino dias antes. Em fração de segundos a tropa compreendeu que o Comandante pretendia reeditar a prática da punição degradante, que já não tinha previsão legal.

Instantaneamente transformada em massa a tropa emitiu um grito, como se estivesse ensaiado. “Não”.  Num gesto de extrema indisciplina, a tropa partiu para cima da Viatura da Polícia Civil no intuito de virá-la. O Comandante foi seriamente ameaçado. Também surpresos e insatisfeitos com o ato pretendido pelo Comando, os Oficiais ficaram paralisados, atônitos.

O então Capitão Ardenildo tomou a iniciativa. Pegou o microfone e, na forma técnica recomendada para controle de tumulto, usando freses curtas e no imperativo, determinou o recolhimento do Soldado ao Xadrez, e a retirada imediata da Viatura da Polícia Civil do local, no que foi prontamente atendido.  A tropa se recompôs e foi dado o comando de fora de forma. Apreensivos todos voltaram às suas atividades.

No mesmo dia o Soldado foi expulso, e como tinha sido preso em flagrante, foi conduzido em uma Viatura da Policia Militar para a Central de Polícia, na forma da lei.   Sem execração.

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