Os Chimbicas da Paraíba

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Tenente Antônio de Oliveira Andrade
    Chimbica era um termo muito conhecido entre os alunos que faziam o Curso de Formação de Oficiais na Academia de Polícia Militar de Pernambuco, pois era um apelido dado a um aluno da cada turma. Nesse contexto a Paraíba teve alguns Chimbica. Aqui vamos explicar como isso ocorria.
   Nos cursos de formação dos policiais militares as atividades de educação física objetivam, de imediato, ensejar um condicionamento físico adequado às atividades práticas dos alunos no decorrer dos treinamentos. Mas, na essência, essas atividades são voltadas para promover uma maior integração entre os participantes dos cursos. Uma das principais atividades voltadas para esse fim é a realização de competições esportivas. 
      Porém, paralelo aos jogos ou dinâmica de grupos que desenvolvem ou fortalecem o espírito competitivo do grupo, são realizadas, de maneira formal ou não, alguns atos, de integrantes do próprio grupo ou de instrutores, que ficam marcados para sempre na memória de cada integrante da turma.  Aliás, coisas desse tipo podem  ocorrer em todas as disciplinas ministradas nos cursos.  São apelidos, gozações, ou outras formas de brincadeiras, onde são enfocados aspectos físicos ou formas de agir de alguns alunos.
           Quando esses atos eram realizados sem as devidas cautelas, principalmente explorando referência a cor ou raça podiam resultar em ações modernamente denominadas de “bulings”.  Por essa razão tais gozações felizmente estão sendo reduzidas, embora ainda continuem existindo de forma mais sutis. 
       Uma marcante gozação desse tipo ocorria nos Cursos de Formação de Oficiais realizados na Academia de Polícia Militar de Pernambuco no decorrer das décadas de 1970 a 1990, pelo menos.  Era a escolha do Chimbica da turma.  Durante muito tempo, nesse período, o Instrutor de Educação Física do CFO era o Major Alves, um conceito profissional desse ramo, que, paralelamente era preparador físico do Clube Náutico Capibaribe.  Competente, vibrador e muito carismático, o Major Alves era muito admirado e querido pelos seus alunos.  Suas aulas eram muito puxadas, mas ele sempre conseguia torná-las divertidas.
       Anualmente o Major Alves elegia um aluno do primeiro ano como “O Chimbica” da turma e ele ficava com esse título até a declaração de Aspirante. O Chimbica era sempre o aluno mais baixo e franzino do grupo. E observando os Chimbicas de cada turma se percebia como eles eram fisicamente parecidos, até em termos de personalidade havia semelhança, pois sempre eram “brabos” e pareciam superar a aparência física com demonstração de muita coragem. Esse aspecto dos Chimbicas ficava evidenciado nas práticas esportivas de todas as modalidades.  Eram “raçudos”, jogavam duros, davam e levavam porradas e não reclamavam, mas de vez em quando partiam  para vias de fatos com os grandalhões.  Até mesmo nos tatames, onde todos queiram tê-los como cobaia, eles se mostravam afoitos, embora sempre levasse desvantagem.   Em termos de aproveitamento nos cursos eles não eram diferenciados. Eram disciplinados, aplicados, estudiosos e muito vaidosos no trato dos uniformes. Parece que eles aceitavam o título com naturalidade, pois nunca vi bronca por causa desse apelido durante os três anos que com eles convivi. Aliás, antes da escolha ser feita pelo Instrutor, o que ocorria durante uma aula, a turma já tinha escolhido o Chimbica.  É incrível como em toda turma sempre tinha alguém com esse aspecto físico.
     Na Academia de Pernambuco, até 1990, tinha alunos de diversos Estados, inclusive da Paraíba.  Naquele período dois Chimbicas foram da Paraíba.   Em 1974 o escolhido foi o Aluno Antônio de Oliveira Andrade, e no ano seguinte foi a vez do Aluno João de Oliveira Delgado. Fui contemporâneo de Andrade e testemunhei que ele preenchia todos os requisitos dos Chimbicas.
        Lamentavelmente os nossos Chimbicas foram vítimas de tragédias parecidas. Delgado faleceu, em 1978, ainda como Aspirante e Andrade faleceu como 2º Tenente, em 1982, ambos em acidentes automobilístico.  
     João de Oliveira Delgado, natural da cidade de Esperança, era filho de José Bonfim Delgado e Maria de Oliveira Delgado. Nascido no dia 15 de março de 1952 ele ingressou na Polícia Militar em 24 de fevereiro de 1975, portanto com 23 anos de idade.  Após concluir o CFO em dezembro de 1977, o Aspirante João de Oliveira Delgado passou a estagiar no 2º Batalhão, em Campina Grande, juntamente com seu colega de turma o Aspirante Marcos Assis de Souza.  No dia 26 de maio de 1978, Delgado se dirigiu à cidade de Esperança, juntamente com Assis.   Delgado dirigia um Fusca de sua propriedade e ao chegar a uma curva nas proximidades daquela cidade o veículo saiu da pista.  Delgado, que estava sem cinto, foi atirado ao solo, tendo morte imediata. Assis, que ficou dentro de carro, teve lesões leves. Foi um dia triste para a Polícia Militar. Acabava o sonho de um jovem Oficial.
      Antônio de Oliveira Andrade, nasceu em João Pessoa no dia 21 de dezembro de 1953 e ingressou na Polícia Militar em 7 de março de 1974, portanto com 21 anos de idade.  Após concluir o CFO em 1976 o Aspirante Andrade estagiou no 2º Batalhão de onde foi transferido, no final daquele ano, já como 2º Tenente, para o 1º Batalhão, em João Pessoa.  Andrade media um metro de sessenta de altura e tinha pouco mais de sessenta quilos, o que justificava sua escolha como Chimbica. Ele tinha muita habilidade como atleta de futebol de salão, modalidade esportiva muito praticada no âmbito interno da Polícia Militar nas décadas de 1980 e 1990. Driblava bem e chutava muito forte com a perna esquerda.  Mas o que chamava mais a atenção em Andrade era o seu espírito aguerrido, a sua forma “raçuda” como disputava as jogadas, principalmente considerando o seu porte físico. Não importava o tamanho do adversário, Andrade partia pra cima. As pernas finas do magro pareciam de ferro. E, de vez em quando, ele partia para briga com os grandalhões. Em um jogo entre as equipes dos Oficiais do 1º BPM contra o 2º BPM,   realizado em fevereiro de 1982, na Quadra do Clube dos Trabalhadores, em Campina Grande, Andrade disputou uma bola com o Capitão Freitas, que tinha quase o dobro da estatura dele. Andrade foi jogado fora da quadra e foi bater na mureta que separava a arquibancada do espaço de jogo. Todos correram para socorrer Andrade, mas ele se levantou lépido de fagueiro, ajeitando o calção e fazendo marra para Freitas, em atitude de desafio. Foi uma cena meio quixotesca, que gerou muitos risos. Mas Andrade levava a coisa a sério e foi preciso muito esforço dos amigos para evitar uma confusão. Em todo jogo ou pelada, Andrade fazia coisa desse tipo.
      Outra particularidade de Andrade era a forma desastrada como ele administrava suas despesas, o que talvez possa ser explicado pelo fato de está no primeiro emprego e achar que ganhava muito bem.   Logo que terminou o CFO, ele comprou um Chevette novo, o que era coisa rara para um Aspirante naquela época. Mas para administrar os pagamentos desse veículo ele foi fazendo trocas e mais trocas que passaram por um carro de menor valor, depois por um conjunto de som, e foi terminar em um canário, que pouco depois morreu, pois o seu bico era uma prótese de madeira. Comentaram na época que esse pássaro era de briga e tinha perdido o bico em uma rinha. Diziam também que o dono desse canário era o Capitão Jônio Mauro, que mandou fazer a prótese e fez a troca com Andrade exatamente pelo conjunto de Som da CCE. Essa história divertiu muito os amigos de Andrade. 
      No pouco tempo que Andrade passou com o Chevette, ele usava um chaveiro com uma bola de pelúcia branca do tamanho de uma manga espada. Nos fins de semana Andrade chegava ao Clube dos Oficias, que naquela época era na beira mar da Praia do Cabo Branco, de calção preto, bem curto e apertado, com o dito chaveiro pendurado de lado, parecendo querer ostentar seu porte franzino que ficava destacado com o seu hábito de ficar  em pé com as mãos na cintura. A partir de então os seus amigos mais íntimos passaram a chama-lo de passarinho, em uma alusão ao seu porte físico. E esse apelido foi se espalhando no circulo de amigos de Andrade.
     Logo que comprou esse Chevette, Andrade chegou ao Quartel do 1º Batalhão, na manhã de um domingo e chamou o Tenente Elias Rodrigues, que estava saindo de serviço de Oficial de Dia, para ir até Campina Grande. Elias aceitou, entrou no carro e Andrade meteu o pé esbanjando habilidade como motorista. Chegando a Campina, passaram em frente ao Batalhão e, simplesmente retornaram. Nem desembarcaram do carro. Elias não entendeu nada, nem Andrade explicou.  Era coisa que só Andrade entendia.
       Disciplinado e disciplinador, Andrade cumpria bem suas tarefas burocráticas e se mostrava muito vibrador e com aptidão para as atividades operacionais. Aos poucos ele foi amadurecendo e conquistando o respeito e admiração dos seus pares,  superiores e subordinados.
     No dia 18 de junho de 1982 Andrade participou de uma pelada em um campo no bairro do Roger e, dirigindo seu nova carro, agora um fusca 1980, foi para a casa do Tenente Marco Assis, localizada naquele bairro, aonde assistiu ao jogo do Brasil contra a Escócia, pela copa do mundo, na Espanha. Terminado o jogo, pouco depois do anoitecer, Andrade saiu dirigindo o seu Fusca em direção ao Bairro do Castelo Branco aonde iria assistir a outro jogo, junto com outros amigos. Ao trafegar na Avenida Pedro Segundo, na altura do local conhecido como “curva da santinha”, Andrade perdeu a direção do veículo e se chocou com uma camioneta que trafegava em sentido contrário, tendo morte imediata.  
   Toda corporação sentiu muito a morte prematura do nosso querido Andrade. Foi outro dia de muita tristeza para a Polícia Militar
Tenente Antônio de Oliveira Andrade

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3 Comentários em "Os Chimbicas da Paraíba"

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Eduardo Azevedo
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Eduardo Azevedo
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O sr. tem como publicar sobre a fundação da APMCB? Quem foi o 1° comandante, quem conseguiu trazer o cfo para formar na Paraíba?

coronel batista
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Sim Eduardo. Aguarde, muito breve estarei fazendo isso. Obrigado pela participação. e se puder, divulgue nosso blog. com os amigos.