JOVEMCÍDIO: Divulgação e risco de prisão

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     O nosso trabalho monográfico no Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais, (CAO) realizado em 1986 na Academia de Polícia Militar de Pernambuco, foi sobre a criminalidade em João Pessoa. No decorrer da década de 1990 realizamos mais duas pesquisas sobre esse tema as quais foram utilizadas por companheiros da Corporação que cursavam o CAO em outros Estados.

         Em 2002, quando frequentamos o Curso Superior de Polícia, que, a partir de então, passou a ter a denominação de Curso de Especialização em Segurança Pública, voltamos a estudar esse tema no trabalho monográfico, agora de forma mais específica voltado para uma análise dos homicídios contra a população jovem.  O curso foi realizado na Faculdade Católica de Pernambuco, em convênio com a Polícia Militar daquele Estado.

   Fazendo uso de um ousado neologismo, titulamos esse trabalho de Jovencídio em João Pessoa, um grito de alerta, e editamos cem exemplares de um livreto com 66 folhas que foram distribuídos às principais autoridades dos três poderes do Estado, inclusive aos seus respectivos chefes. O objetivo dessa medida era alertar as autoridades para necessidade de adoção de medidas urgentes.

    Pelos dados que levantamos a cidade de João Pessoa já despontava como uma das mais violentas do Brasil, em particular no que se refere a homicídios contra a população jovem. Os dados coletados permitam uma comparação com a situação das demais capitais do nordeste, permitindo uma visão contextualizada do problema. As séries históricas desses crimes indicavam que no ano de 2003 ocorreriam 130 homicídios de jovens na capital da Paraíba, o que constituía uma grande preocupação.

         O trabalho indicou dias e turnos em que esses crimes ocorriam com maior incidência, assim como faixas etárias mais atingidas. Utilizando informações privilegiadas, listamos todos os homicídios desse tipo ocorridos em 2002 nessa cidade, com nomes e idades das vítimas e local e tipo de armas empregadas.

       Enfocamos também os dados que evidenciam a impunidade como principal causa do crescimento desses e de outros tipos delitos. Nesse contexto identificamos que o policiamento ostensivo não inibe a prática desses delitos, concluindo que a intensificação das atividades de polícia judiciária muito poderia contribuir para a redução do que denominamos de jovencídio.

      Mas a divulgação desses dados por pouco não me causou uma punição disciplinar. É o que passamos a expor.

     Em meados de janeiro de 2003 o Governador convocou todos os Coronéis para um almoço na Granja Santana, o que era uma forma de contornar a crise gerada no âmbito da Polícia Militar em razão dos atos de  discutíveis legalidades de despromoções de oficiais que tinham ocorrido no começo do Governo. Naquela oportunidade fizemos a entrega de um exemplar do Jovencídio ao Governador, que o folheou demonstrando interesse e tecendo alguns comentários favoráveis. O Comandante já tinha recebido um desses livretos em seu Gabinete.

       No dia 6 de fevereiro de 2003, a convite da Coordenação do Curso de Sociologia da Universidade Federal da Paraíba, fizemos uma exposição desse trabalho para alunos e professores daquela instituição. Na véspera desse fato, fomos procurados pela imprensa e expomos alguns dados da pesquisa, o que resultou na matéria que ilustra este artigo.

   Ao que nos parece, o Jornal “O Norte” era um órgão de oposição e a manchete referente à matéria já mencionada causou muita preocupação ao Governo. Por esse motivo, durante o tempo em que eu estava fazendo a exposição do trabalho na UFPB, o Comandante me ligou oito vezes, mas o meu celular estava desligado. Depois da palestra, retornei a ligação e recebi ordem para me apresentar imediatamente no Quartel, o que achei estranho, pois eu estava de férias e aguardando a passagem para a reserva.

        Cumpri a ordem e só então tomei conhecimento da matéria do jornal. Visualizei a possibilidade de uma punição. O Comandante disse que o Governador já tinha ligado diversas vezes procurando saber de onde eu tinha tirado aquelas informações. Então informei que todos os dados que o jornal publicou constavam do livreto que tanto o Governador como o Comandante tinham recebido dias antes.

        Mas ao que me parece, um dos motivos da insatisfação do Governador era com a interpretação que alguns assessores do Governo davam a autoria do depoimento.  O Jornal dizia “PM diz que..” , se referindo à afirmação de um policial militar, que no caso era eu. Mas esses assessores interpretavam que a sigla “PM” utilizada na manchete se referia à Policia Militar, portanto, a afirmação teria sido do Comandante, o que seria um golpe do Governo contra ele próprio.  Parecia uma caça às Bruxas.

    O Comandante fez uma ligação, não sei para quem, conversou um pouco e sem seguida me dispensou, pedindo para eu evitar entrevistas sobre aquele tema. Durante alguns dias esperei um memorando para formalizar a aplicação de uma punição, o que não ocorreu. .E no fim daquele mês ....  veio o pijama.

  Tempos depois busquei atualizar aqueles dados e percebi que eu tinha errado, pois a quantidade de  mortes de jovens naquele ano  foi um pouco maior do que a que eu tinha estimado.  E, infelizmente,  esse fenômeno vem crescendo a cada ano.

 

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