Interferência política nos Destacamentos Policiais

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A vida dos policiais militares nos Destacamentos do interior sempre foi muito difícil. Atualmente, em algumas cidades, as Prefeituras fornecem alimentação, como se fosse um favor, e às vezes uma ajuda financeira aos policiais.
Como a escala de permanência na cidade é suave, e quase sempre ocorre nos dias de feira e mais um ou dois dias por semana, essa atividade se torna atrativa para muitos policiais.
Há casos também em que o policial que tem um “bico“, paga a um companheiro para tirar seus plantões nos Destacamentos, o que é muito vantajoso para ambos.
Além do mais as exigências relacionadas à disciplina e cumprimentos de horários feitas
pelos Comandantes dos Destacamentos também são bem menores do que as que são feitas no interior dos quartéis, o que também concorre para atrair os milicianos.
Alguns policiais, casados ou solteiros e de todas as faixas etárias, também são motivados para esse serviço pela facilidade de estabelecer relacionamentos amorosos nessas cidades,
o que tem gerado, com certa frequência, o pagamento de pensões de alimentos.
     Mas até o final dos anos setenta do século passado, essas atividades exigiam muito sacrifício por parte dos policiais.  Os baixos vencimentos não lhes permitiam fixar residência nas cidades para onde eram destacados. Isso fazia com que eles passassem a se alojar nas sedes dos Destacamentos, onde também funcionavam, indevidamente, a Delegacia e a Cadeia Pública. Eram imóveis adaptados para essas funções e que estavam permanentemente mal conservados.  Naquela década ainda existiam prédios de Delegacias que não contavam com energia elétrica. Os policiais não recebiam qualquer vantagem financeira do Estado para o exercício dessas funções. Não contavam com transporte, nem meios de comunicações, e a arma que a Polícia Militar disponibilizava era um Fuzil Mauzer modelo 1908, com dez ou vinte cartuchos, nem sempre em bom estado de uso em razão de falta de um acondicionamento adequado. Normalmente o Comandante do Destacamento era um Cabo ou Sargento, do serviço ativo ou reformado, que acumulava as funções de Delegado de Polícia, sem contar com escrivão nem agentes de investigações. Mas a ordem era mantida. Só quem reagia às ações da polícia eram os protegidos políticos.
      Sem receber ajuda do Estado ou do Município, os policias se cotizavam, faziam uma feira básica, e preparavam a comida no interior das Delegacias, fazendo um revezamento do papel de cozinheiro.  No jargão interno, essa atividade é conhecida como “bater lata”. Dormiam em redes, usavam água de cacimbas e lavavam suas roupas, que eram postas para secar em varais no quintal da Delegacia ou nas grades do xadrez improvisado.
     Quando um policial era transferido para um Destacamento, tinha de se virar com transporte. Era comum se ver policiais fardados, portando uma mala amarela, com duas listar marrons se cruzando na tampa, e um fuzil a tiracolo, trafegando em ônibus intermunicipais, ou em caronas em cima de camionetes ou caminhões. Muitas vezes viam-se também essas mesmas figuras caminhando nas estradas empoeiradas em direção às cidades para onde tinham sido transferidos.
      Mas a dificuldade maior dos policiais nessas situações era a instabilidade. Qualquer ação policial que contrariasse o interesse dos chefes políticos locais gerava uma transferência, às vezes de todo Destacamento, o que se formalizava de maneira sumária com um telegrama do Comandante do Batalhão da área. Nada era apurado. Os pedidos dos políticos locais eram ordens.  E aí vinha mais uma maratona para se chegar ao novo local de trabalho.  Os motivos para esses atos poderiam ser, por exemplo, a apreensão de uma arma, uma prisão arbitraria ou um espancamento, desde que a vítima fosse correligionária do chefe político local, e o policial não atendesse imediatamente ao pedido dessa autoridade. Deixar de ser arbitrário com os adversários do chefe políticos também era motivo de transferência.  Mesmo assim, muitos policiais “maceteados” passavam anos a fio em um mesmo Destacamento.
        Devolver uma arma apreendida ou soltar um preso, qualquer que fosse o motivo da sua prisão, ou na falta disso, conseguir a transferência de um soldado que não atendeu a um pedido seu, fortalecia o prestígio dos políticos e gerava votos. Essas práticas eram tão comuns que quando um policial queria sair de um Destacamento era só apreender uma arma ou efetuar a prisão de um protegido político, mesmo que a prisão fosse legal, e ao chegar à Delegacia, desarmar a rede, arrumar a mala amarela e aguardar o radiograma de transferência.

    Nos dias atuais essa realidade se manifesta de forma menos ostensiva, mais igualmente degradante para os policiais. Aliás, essas interferências, ontem, como hoje, vão muito além dos Destacamentos. O pior é que a subserviência  de alguns dirigentes da corporação e de muitos agentes políticos, fundada em conveniências político-partiddária ou vantagens financeiras, insistem em ignorar a extensão desse problema o que fortalece sua continuidade.

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