Um golaço da PM da Paraíba. Ação da PM salva um homem acometido de AVC e que estava só em casa


A PM/PB fez um golaço, no sentido figurado, em dezembro de 1984, na cidade de Cajazeiras. Era o fim do quinto ano consecutivo de seca no sertão da Paraíba. O calor em Cajazeiras era sufocante. Na tarde do dia 16 daquele mês, um ensolarado domingo, os policiais militares que estavam de serviço de guarda na 1ª Companhia de Polícia, sediada naquela cidade, se aglomeravam em frente da TV instalada no Corpo da Guarda do Quartel. Um fato esportivo parava o Brasil. Era a final do Campeonato Carioca. Record de público no Maracanã, com mais de cento e cinquenta mil torcedores.

     Ao grupo de telespectadores se juntaram os policiais da Guarnição de um fusca, e diversos policiais laranjeiras. O espaço ficou pequeno para acolher tantos torcedores. Apenas três torciam pelo Fluminense. A empolgação era geral. O Flamengo era o favorito o que tornava seus torcedores mais eufóricos. O primeiro tempo terminou sem gols. Começaram os comentários, cada vez mais exaltados.

   Sentado em local privilegiado da sala, o Sargento Sobral, um fanático rubro-negro fazia ironias com o trio de tricolores presente e que integrava a Guarnição Especial por ele comandada.

- É danado - comentou Sobral em tom de gozação - Logo hoje eu pego três tricolores na minha guarnição. Esses coitados vão sofrer de mais ...

 - Vamos ganhar com um golaço de Nunes, comentou outro apaixonado flamenguista.

   Ao lado do Corpo da Guarda ficava a central de comunicações da Companhia. O barulho dos torcedores obrigava ao Soldado Faustino, o telefonista, a fazer um esforço para ouvir um chamado de um cidadão, que parecei apavorado. Depois de entender a gravidade do pedido, Faustino entrou apresado no Corpo da Guarda. A expressão de pavor de Faustino fez cessar as discussões.

- Sargento Sobral, – disse Faustino – tem um chamado estranho. Um homem tava dizendo que está só em casa e que está passando mal e precisando de socorro com urgência. Ele falou que o quarto onde ele está era na parte de cima de uma oficina de TV e que a porta tá fechada, mas podiam arrombar, pois ele não tinha condições de descer para abrir. E de repente ele se calou ...

Sobral era o Sargento de dia e nessa condição comandava todo efetivo da PM empregado em serviço na cidade. Ele foi enfermeiro quando prestou serviço militar, era habilidoso na prestação de primeiros socorros e tinha mania de falar sobre cuidados com a saúde.

  De repente Sobral levantou-se e chamou os integrantes da Guarnição do Fusca, e mais os três Soldados, que integravam a Guarnição Especial que tinha a missão de fiscalizar a apoiar as outras guarnições. Essa patrulha era transportada em uma Camionete C-10, amarela.

     Ninguém reclamou por deixar de assistir ao jogo.

     Embarcaram e saíram rápido. Pela narração de Faustino, o Motorista da Camionete, o Soldado Edmilson, sabia o endereço do solicitante.

   Ao chegarem ao local, os policiais desembarcaram rápido. Sobral bateu diversas vezes na porta sanfona da oficina. Ninguém respondia.

     Começou o drama. Arrombaria a porta ou não? E se fosse um trote que consequências teriam? Atraídos pelo barulho das sirenes, uns vizinho chegaram ao local e informaram que naquela casa morava o técnico em TV, um senhor idoso e mais duas filhas que tinham saído cedo para uma vaquejada na cidade de Souza.

   Depois de pedir o testemunho dos vizinhos, Sobral resolveu arriscar. Ele e mais três Soldados forçaram o centro da porta em movimentos simultâneos. A porta cedeu e saiu do trilho lateral, deixando uma pequena abertura, por onde os policiais entraram.

   Na sala tinha um balcão e por trás dele uma grande quantidade de aparelhos de TV que deveria estar em concerto. Sobral bateu no balcão tentando chamar a atenção de alguém que ali estivesse. Não teve resposta. No lado esquerdo da parede, depois do balcão, tinha uma estreita escadaria.

     Sobral e seus comandados subiram. Passaram por uma sala e entraram em um quarto. Lá estava um homem caído ao lado da cama com um telefone na mão. Era um moreno, forte e de cabelos grisalhos. Sobral verificou os sinais vitais.

- Está vivo, - disse Sobral - vamos removê-lo para o hospital.

Sobral e os três Soldados começaram a condução, e levaram a vítima até o começo da descida. Mas o peso da vítima e a largura da escadaria dificultavam muito a operação.   Por ordem de Sobral, os outros três policiais subiram e com muito esforço conduziram o homem até a oficina.

       Para passar pelo buraco da porta foi outra dificuldade.

   Um Soldado subiu na carroceria da Camioneta e o homem foi ali colocado com a cabeça apoiada nas coxas do policial. Sobral se colocou ao lado do homem tentando reanima-lo. Um Soldado ficou no local guarnecendo a casa, pois a porta ficou arrombada.

   No hospital a sala de entrada estava deserta. O pessoal de serviço estava assistindo ao jogo na TV. Sobral esbravejou nos corredores e logo surgiram diversos servidores. Providenciaram uma maca onde o homem foi colocado. Correria geral.

       O Médico era conhecido de Sobral e ouviu atentamente o seu relato e depois de um exame rápido, ordenou a condução do homem ao setor de emergência.

   Sobral mandou a Guarnição do fusca voltar ao local e tentar localizar a família do homem. Quase uma hora depois chegou ao hospital uma filha da vítima revoltada porque a polícia tinha arrombado a casa dela, o que deu início a uma discussão com o Sargento. O Médico se aproximou e informou que o homem teve uma AVC e só conseguiu sobreviver por conta da rapidez no socorro e parabenizou Sobral pela presteza do serviço que executou.

     Diante do que o médico disse, a mulher que estava criticando a ação da PM, pediu desculpas ao Sargento e solicitou permissão do médico para ver o pai, o que foi negado, pois os procedimentos ainda estavam em andamento.

     Preocupados com o andamento da ocorrência os integrantes da Guarnição não se lembraram do andamento do jogo.

     Pouco depois chegou o restante da família e um deles se prontificou a cuidar do concerto da porta, dispensando a presença do policial no local.

     Missão comprida, as guarnições voltaram ao Quartel. Durante a janta os tricolores da guarnição fizeram a maior gozação com Sobral. O Fluminense venceu por um a zero, golaço de cabeça de Assis aos trinta minutos do segundo tempo e se consagrou bicampeão carioca. Com o orgulho rubro-negro ferido, o Sargento Sobral resmungando desabafou:

   - Hoje o Flamengo perdeu o campeonato, mas a nossa PM fez um golaço nessa ocorrência.

   Os tricolores concordaram.

    O fato não teve repercussão na imprensa e nem a família do homem socorrido externou agradecimento aos policiais.

   Soube desses fatos no dia seguinte, pois eu era Comandante daquela Companhia na época. Mas, anos depois, ele me foi relatado em minúcias por Sobral que estava interno no Hospital da UNIMED,  em João Pessoa.  Já na reserva, na graduação de Subtenente,   Sobral   ainda lembrava do golaço que ajudou a PM marcar naquela ocorrência. Dias depois Sobral veio a óbito.

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