Aspirantes de 1974: Um exemplo de integração e amizade

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      Os alunos de todas as turmas dos cursos de formação, aperfeiçoamento ou especialização, realizados no âmbito da Polícia Militar, costumam se integrar e desenvolver duradoras e salutares amizades, que são fortalecidas e preservadas através de encontros festivos, que às vezes contam até com a participação de familiares dos integrantes do grupo. Essas atividades acabam ensejando reflexos positivos para a corporação uma vez que facilita o fortalecimento do espírito de corpo, que é um relevante fator para a criação da indispensável autoestima dos policiais.
        Quanto mais longo é o curso, maior é a oportunidade de formação e duração desse convívio, portanto é natural que os alunos do CFO tenham maiores possiblidades de formar esse vínculo. Mas a realidade dos últimos anos parece mostrar que é nos Cursos de Formação de Soldados que esse fato vem ocorrendo de forma mais perceptível.
 Lamentavelmente, entretanto, com o passar do tempo esses vínculos, como muitos outros que são próprios da nossa vida, vão se enfraquecendo, perdendo o sentido e aos poucos se tornam meras lembranças.
    Mas, entre muitos grupos desse tipo que vimos se formar, um deles ganha um realce especial, não só pela intensidade das atividades desenvolvidas como também pela sua longevidade. É o caso dos Oficiais da Paraíba que se formaram na Academia da Polícia Militar da Bahia em 1974. Desde o início do Curso, em fevereiro de 1972, que esse grupo se reúne anualmente, para celebrar essa amizade. Já promoveram encontros em Salvador diversas vezes, ocasiões em que reuniram o restante da turma, que tem Oficiais do Para e Alagoas.  Quase sempre as esposas dos integrantes do grupo participam dos encontros, o que, por certo, contribuiu para fortalecer ainda mais essa amizade.
    O grupo inicialmente era formado pelos seguintes alunos: Hugo, Cláudio Pio, Elias Rodrigues, George Ribeiro, Germires Vamberto, Marcos Martins, Evamberto, Valderedo Borba, José Fagundes, Marcílio Evangelista e Rubens Alencar.   Durante o curso Hugo foi transferido para a PM da Bahia, aonde chegou ao posto de Coronel.  Cláudio Pio foi desligado do curso quando faltavam apenas seis dias para a declaração de Aspirantes, e pouco depois ingressou no fisco estadual. Dois outros também deixaram a Corporação: Elias Rodrigues, ainda como Tenente, também ingressou no fisco do Estado, e George, já no posto de Capitão, foi transferido para a Defensoria Pública.  Germires alcançou o Posto de Tente Coronel, passou para reserva e pouco depois faleceu. Evamberto e Marcos foram para a reserva também como Tenente Coronel e os demais, Borba, Alencar, Fagundes e Marcílio, alcançaram o último posto da Corporação. Mesmo os que deixaram a Corporação continuaram integrando o grupo e participado dos encontros.
     Para melhor se registrar esse fato, que tem como motivação expor um bom exemplo a ser seguido, e assim incentivar a criação de outras experiências dessa natureza, transcrevemos a seguir um relato feito pelo Coronel Valderedo Borba, um dos mais entusiastas integrantes do grupo.
CRÔNICA DOS 40 ANOS DA TURMA
        Tudo começou em 1972, quando ainda nem nos conhecíamos. Estávamos concorrendo às dez vagas do CFO daquele ano, o último com a exigência de apenas a conclusão da 4ª série ginasial. Eram 114 concorrentes para 10 vagas, na época uma grande disputa, nem tem comparação com os concursos de hoje. Então fomos classificados, aprovados, incluídos na Polícia Militar da Paraíba, só ainda não sabíamos aonde iriamos fazer o Curso de Oficiais, mas de repente tivemos a noticia de que iriamos pra Bahia.
       O Coronel PM Geraldo Gomes da Silva, foi o encarregado de nos apresentar na APM-BA, em Salvador. Chegamos e fomos entregues à sorte, nas mãos de Deus. Já no primeiro dia levamos trotes dos alunos que se encontravam na APM. Alguns perguntaram logo pela “peixeira”, com tremenda gozação. Vimos logos que precisávamos nos unir, para sobreviver. Embora houvesse diferenças entre nós, conseguimos ser uma turma unida, tanto que depois de alguns anos, já Oficiais, cognominamos a turma de “Turma Sempre Unidos” e Germires criou essa logo marca, mesclando as bandeiras da Paraíba e da Bahia.
     A primeira reunião aconteceu em setembro do ano de 1972, quando conseguimos, acho que pela primeira vez, vir desfilar no dia 7 de setembro, o que foi um sucesso. Fomos aplaudidos, e até me lembro de um comentário de alguém, talvez de algum reformado, quando passávamos por baixo do viaduto do ponto
de cem réis: “A Polícia botou o Exelcio pra traz”.
     Era a consagração e a justificativa de termos vindo desfilar aqui. Depois desse ano, sempre viemos participar desse desfile, o que era uma exceção para a Academia da PMBA, mas que virou moda, pois as outras PMs copiaram o nosso gesto. Era a Paraíba ditando moda na Bahia, e isso era complicado, porque causava inveja, principalmente porque um dos nossos companheiros estava se destacando intelectualmente. Era o Cadete George da Silva Ribeiro, a quem passamos a chamar de “cabecinha”. Foram anos difíceis, mas muito gratificantes quando os relembramos agora, quando estamos completando 40 anos de Aspirantes, agora no dia 19 dezembro de 2014.
        Portanto, as nossas reuniões que começaram em setembro de 1972, completaram 42 anos, os quais foram comemorados com muito estilo, no dia 13 de dezembro, na AFRAFEP, num almoço, com a presença dos nove remanescentes da turma, e reverenciando o nosso saudoso Germires.
       Fomos apresentados como Aspirantes, ainda em dezembro de 1974, e em seguida distribuídos, de acordo com a nossa classificação intelectual no curso. Lembro que George, primeiro lugar ficou no QCG, Marcos também ficou no QCG; Elias foi para o 2º BPM, em Campina Grande; Fagundes foi para Guarabira; Marcílio para Patos, Borba e Germires foram para o antigo CI, na capital, no Bairro do Roger; e Evamberto e Alencar foram para o Corpo de Bombeiros. Falta um, Claudio Pio, que não queria ser PM, e fez de tudo para ser desligado, conseguindo o feito, apenas seis dias antes da Declaração de Aspirante, e ficou um tempo no QCG, até que se resolvesse a sua baixa da PMPB.
        Estávamos felizes como aspirantes, mas como o nome indica, queríamos ser oficiais, e fomos promovidos, no dia 05 de agosto de 1975, data de aniversário da Capital e dia de Nossa Senhora das Neves. Estabilizados, assumimos diversas funções na PM, e vieram as promoções, até capitão sem muita surpresa, mas a ascensão ao Oficialato superior, principalmente, ao último posto, de Coronel fechado, como costumamos chamar, alguns demoraram mais, outros nem chegaram lá, mesmo porque George e Elias deixaram a farda para desempenharem outras funções, como Advogado e Agente fiscal, respectivamente.
         Mas, fato curioso, é que mesmo alguns sem serem promovidos, perdendo até a sua antiguidade, continuamos unidos, o que causava espécie a alguns, que vaticinavam que era uma questão de tempo, para a desintegração daquela amizade, feita à base do berimbau e da capoeira.
        Mas o fato é que estamos ainda unidos, apesar da morte física de Germires, o primeiro a nos deixar, fisicamente, mas que estar e nossas reuniões, simbolicamente, através de uma vela acesa. Esse foi um pacto que fizemos: “Acender uma vela para cada um que nos deixar pela passagem da morte física”. Na turma tivemos um Sub-Cmt Geral e Chefe do Estado Maior, Secretário Adjunto de Segurança Pública, dois Diretores de Apoio Logístico, um Chefe da Casa Militar do Governador, um Assessor do Poder Legislativo, para destacar as funções mais importantes.
      Todavia, o mais importante mesmo é a manutenção dessa união, e, com apenas uma baixa, continuamos todos lúcidos e com a memória ativa, embora, com o HD principal cheio, alguns já estão usando o externo, mesmo porque o mais novo já passou dos 60 e o mais velho ainda não alcançou 70 anos de vida. E com a graça de Deus, alcançaremos os 50 anos de aspirantado, para comemorar com muita luz e lucidez.
        Obrigado. Muita Paz!
                      João Pessoa, 16 de dezembro de 2014.
                                                                           Valderedo Borba – Cel PM R/R
                                                                                    Membro da Turma
Valderêdo Borba e George Ribeiro - Integrantes da Turma
Confraternização do Turma no Clube do Oficiais
Marcílio Evangelista e Germires Vamberto - Integrantes da Turma

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