A USAID na PM/PB: O Programa Ponto Quatro na Paraíba

Compartilhe!


 Logo depois da segunda guerra mundial a política externa dos Estados Unidos se voltou a desenvolver ações destinadas a fortalecer os seus laços políticos e econômicos com os países aliados objetivando sobretudo, impedir a expansão das ideias socialistas desenvolvidas pela União Soviética. Era o início da chamada guerra fria. O programa, iniciado em 1945, durante o Governo de Harry S. Truman (1945/1953) consistia em fornecer ajuda financeira para o desenvolvimento desses países, pois se partia da ideia de que o socialismo só se desenvolveria em países pobres. De início as atenções foram voltadas para a Europa onde os efeitos da guerra foram mais graves. Mas os países americanos também receberam ajuda, embora em menor escala. As ações eram desenvolvidas por diferentes órgãos do Governo americano. Na essência eram alocados recursos para desenvolvimento em três pontos: agricultura, (inclusive em reforma agrária), educação e habitação (que envolvia saneamento). Mas, nessas ações, ficava patente que predominava o interesse econômico, com a abertura de mercado para os produtos americanos e a exclusividade para aquisição de matéria prima.
A eficiência desse Programa foi posto em discussão em 1959, no Governo de Dwight D. Eisenhower, quando ocorreu a revolução cubana que levou Fidel Castro ao poder.  Os Estados Unidos tinham investido muitos recursos em Cuba, mas não evitou a instalação de um governo socialista naquele país. Por essa razão, no Governo de Jonh Kenedy essa política foi refeita, se voltando da forma mais específica para a América do Sul. Para esse fim foi criada a Aliança para o Progresso, em 1961. Esse programa além de repassar recursos para os Governos dos países sul americanos, também buscava, de forma sutil, desenvolver uma doutrina contrária às ideias socialistas. Assim, foi criado um quarto ponto no programa. (Como visto, antes era apenas três: agricultura, educação e habitação). Para executar essa nova fase do programa foi criada a USAID (United States Agency for International Development = Agência Americana para ao Desenvolvimento Internacional), que passou a centralizar todas as ações.
Para desenvolver seus fins doutrinários a USAID criou um programa, a que denominou de Ponto Quatro (o ponto acrescido no programa). A preocupação maior do programa era doutrinar os integrantes das Forças Armadas e das instituições policiais, para que, preventivamente, se conscientizassem da importância dos valores democráticos e em caso de ocorrer inevitáveis insurreições, que eles assumissem posturas em defesa das instituições democráticas. No entanto, na prática se viu que o que se pretendia na verdade não era defender democracias, e sim angariar adeptos aos interesses americanos, que eram representados por governos democráticos ou não.
Com essa finalidade, mas com a alegação de que as Forças Armadas precisavam se modernizar para se adaptar aos novos avanços da ciência e da tecnologia, foi criado um programa destinado a treinar Oficiais das Forças Armadas, o que foi executado a partir de 1962 em uma academia criada em Washington.  Para treinar os policiais foi criada a Assessoria para Treinamento e Modernização Técnica das Corporações Policiais. Ainda em 1962 foi criada no Panamá, em uma base militar americana, a Academia Internacional de Polícia, que funcionou até 1964, quando foi transferida para Washington.
Para essas Academias foram enviados Policiais Civis e Oficiais das Polícias Militares de todos os países da América do Sul, onde frequentavam um Curso denominado de Curso Geral de Polícia, que tinha a duração de três meses. As disciplinas básicas do Curso eram: Técnica de Policiamento, Controle de Motins, Técnica de Tiro, Uso de Rádiotranceptor, Munição e Explosivo e Técnica de Interrogatório, esta mais voltada para os policiais civis. Mas, na essência, o que predominava era a difusão da doutrina antissocialista.
Esse programa foi encerado em 1971, e durante os nove anos de sua existência, foram treinados aproximadamente 800 policiais militares e civis do Brasil. Os policiais que participaram desses cursos tinham o papel de multiplicadores, o que levou os estudiosos do tema a estimarem que no Brasil cerca de 100 mil policiais foram treinados nessa doutrina.
Naquele período a Polícia Civil Paraíba não estava estruturada e por essa razão o Estado só enviou para fazer esses Cursos Oficiais da PM em um total de onze. Naquela época as principais Delegacias eram ocupadas por Oficiais da PM e um deles, o Major Iran Lordão, que foi um dos enviados para fazer o Curso, exercia essa função em uma Delegacia Especializada da Capital.
Além desses treinamentos, o Ponto Quatro também fornecia equipamentos para as Forças Aramadas e para as polícias, mas eram impedidas de fornecer armas. Na época, em diversas partes do mundo, inclusive em país da América do Sul, estava havendo manifestações estudantis e populares que se mostravam contrárias aos Governos, por isso havia por parte do Programa uma grande preocupação com as atividades de controle de distúrbios.
Por essa razão esse tema era objeto de estudo nos Cursos promovidos pelo programa. Além disso, no rol dos equipamentos que eram fornecidos às Policias Militares constava material de uso em controle de distúrbios, como Viatura tipo transporte de Tropa de Choque, granadas de gás lacrimogêneo, máscaras contra gases, cassetetes que produziam choques e lançavam granadas de pequeno porte, binóculos que permitiam ver no escuro e outros equipamentos dessa natureza.
As polícias civis eram contempladas com laboratórios de análise criminal e outros equipamentos utilizados em investigações.
A participação das polícias estaduais nesse programa era formalizada através de um Convênio firmado entre o Governo e a USAID.
Para coordenar a execução desse programa existia em cada país um representante de USAID. No Brasil, além do Coordenador Geral existiam ainda mais de vinte Assessores que prestavam serviços em polícias de diversos Estados.  O fornecimento do material e a seleção do pessoal indicado para fazer os Cursos eram feitos pelo Coordenador Geral.
Conforme relatos feitos em uma pastagem publicada neste blog, em abril de 1968 ocorreram muitas manifestações estudantis em todo o Brasil, inclusive na Paraíba, onde a Polícia Militar precisou fazer uso da força para conter esses movimentos. No decorrer desses fatos ficou constatado que a PM da Paraíba não estava equipada para ações desse tipo e nem seus integrantes estavam tecnicamente preparados para esse fim.
Possivelmente por essa razão, no dia 10 de junho de 1968 o Governador João Agripino recebeu a visita do Coordenador do Ponto Quatro, o Senhor Theodore Byown que se comprometeu a fornecer material de apoio operacional para as Polícias Militar e Civil. A Polícia Civil recebeu um laboratório de investigações e a PM recebeu viaturas e material de controle de distúrbios. Nesse mesmo ano o próprio Coronel Osanan de Lima Barros, Comandante Geral da PM, participou de um treinamento nos Estados Unidos, e em seguida, em diferentes períodos, dez Oficiais da Corporação foram enviados àquele país para frequentar o Curso Geral de Polícia.
Posteriormente sugiram denúncias de que alguns funcionários americanos representantes do Ponto Quatro teriam preparado policiais de outros Estados para prática de torturas em presos políticos, o que também ocorreu em outros países da América.  Essas denúncias ganharam repercussão internacional, em 1969, quando Dan Mitrione, um desses funcionários, que tinha representado o Ponto Quatro no Estado de Minas Gerais, foi sequestrado e assassinado no Uruguai por grupos de guerrilheiro do Grupo Tupamaro, sob a alegação de que ele teria preparado policiais daquele país para aplicar tortura nas investigações de crimes políticos.  Depois desses fatos, que atingiu a imagem de todo o programa, o Ponto Quatro foi desativado, em 1971.
Oficiais da Paraíba que frequentaram o Curso Geral de Polícia nos Estados Unidos, entre 1968 e 1971: os então Majores, Lindemberg Patrício, Geraldo Cabral, Geraldo Gomes, Geraldo Alencar, Ambrósio Agrícola, Antônio Costa Filho e IvanileLordão e os Capitães José Batista do Nascimento, Ednaldo Rufino, Jorge Lucena e Manuel Paulino.
 
Theodore Byown, representante do Ponto Quatro no Brasil, visita o Quartel da PM
 
Theodore Byown, representante do Ponto Quatro no Brasil, primeiro à direita,  visita instalações na Polícia Militar da Paraiba.

Compartilhe!

Posts Relacionados:


Deixe um comentário

Seja o Primeiro a Comentar!

Notificação de
avatar